Abaixo estão transcritos os textos da Prof. Drª Sonia rangel e da Prof. Mestra Alejandra Muñoz que compuseram o folder impresso para a exposição:
Colcha de retalhos com fios contemporâneos
Os trabalhos de Davi
Bernardo e Josemar Antônio apresentados nesta exposição atualizam uma antiga
discussão de princípios e, trazem à tona questões da arte que remontam ao final
do século XIX, com tudo que o advento da fotografia e da técnica dos pintores impressionistas
ajudou a fragilizar. O Desfocamento, princípio que foi gradativamente diluindo
contornos, para posteriormente se conectar na produção da imagem artística,
desconfigurando o tênue liame que ligava o objeto representado ao objeto
suposto como real, até o aparecimento das abstrações como estéticas fundadas
nos procedimentos criativos de Wassili Kandinski e Piet Mondrian. Uma outra
esfera de questões deriva do princípio da Apropriação, o real através dos
objetos, sua captura no cotidiano inaugurada por Marcel Duchamp,
desestabilizando para sempre o discurso sobre o que é ou não é arte. Ao longo
do século XX, essas questões não se esgotaram, pelo contrário, se
intensificaram, pois a fotografia também fortalece o referente, dando-nos a
ilusão do real sem sê-lo, e tanto a foto-película como a foto-digital evoluíram
em capturas do “real”, tornando-se arte ou fundando, em diálogos múltiplos e
estendidos, muitas outras estéticas. A partir do Desfocamento, Josemar se
apropria da rua e apresenta-nos sua imagem-impressão onde o referente,
poeticamente diluído, aparece como uma pintura. A partir da Apropriação, Davi
captura e desloca objetos da feira, dos camelôs, dos livros sobre arte, e com
seus deslocamentos e apropriações, nos pergunta de novo o que é ou não é arte.
Fios contemporâneos unem o trabalho dos dois artistas e, “antropofagicamente”
também revelam, nas fotografias e na forma instalação, acontecimentos das
nossas ruas na paisagem local.
Doutora e Professora
da Escola de Belas Artes – UFBA
Colcha de retalhos e outras lembranças
Você já se perguntou o que vê
diariamente? Que imagens fazem parte efetivamente do seu cotidiano? Não me
refiro às imagens eletrônicas da TV, do cinema, do vídeo, do computador que
saturam nosso dia a dia, estabelecem ritmos comportamentais e até condicionam nossa
sensibilidade de modo significativo. Porém, pense no seu ir e vir corriqueiro,
nas suas rotinas de trabalho e de atividades.
Essa é a matéria prima desta mostra,
os percursos comuns, através de registros relativamente simples mediante o uso
de câmaras digitais. Partindo de premissas acessíveis à maioria das pessoas, os
artistas propõem um olhar singular do qual emerge uma poética e uma estética do
cotidiano. Os trabalhos de Josemar Antonio e Davi Bernardo emergem num
território lingüístico híbrido que dialoga com o registro visual documental, um
certo caráter lúdico no uso da fotografia digital e uma associação quase
onírica de imagens do dia a dia. Mas não é apenas isso: cada obra propõe também
um debate sobre a qualidade de nossas rotinas.
O conjunto da mostra pode ser
dividido em três eixos narrativos que ocupam espaços diferentes: a instalação
"Colcha de Retalhos", os múltiplos da série "Dreams Work, Work
Dreams" e os polípticos da série “Livros de História”.
A instalação "Colcha de
Retalhos" compreende a apropriação de elementos e de imagens do comércio
informal das ruas, discutindo a estética popular contida nas bancas de camelôs
de várias cidades. A arrumação das feiras livres, a exposição de produtos nos
quiosques, a organização dos exibidores de mercadorias seguem idéias de ordem e
de estética próximas às das vitrines das lojas comerciais regulares. As bancas
dos camelôs são verdadeiros construtos visuais que se compõem de valores de
beleza, de funcionalidade e de estrutura que, ao mesmo tempo, apresentam
especificidades culturais e revelam características comuns como manifestação
típica das grandes cidades. Assim, "Colcha de retalhos" investiga as
possibilidades poéticas do universo dos mercados populares num olhar composto
por vários percursos dos artistas em diferentes feiras e mercados de diversas
cidades.
Esse universo dos camelôs nos permite
aproximar a uma questão crucial de nossa contemporaneidade: as relações
estabelecidas a partir dos vínculos de trabalho. Todos temos um ideal de
trabalho, inclusive o sonho de não ter que trabalhar. Nesse sentido, os
múltiplos de "Dreams Work, Work Dreams" oferecem uma reflexão complexa
a partir do percurso cotidiano de trabalho do artista. A obra avança na
discussão da insanidade de certas rotinas cotidianas, dos valores de
"qualidade de vida" atrelados às atividades laborais. Quantas horas
passamos diariamente no trânsito? Como estamos usando nosso tempo? Na mesma
estrada convivem "o bom salário", que anacronicamente obriga a
percorrer dezenas de quilômetros até o local de trabalho, e os "trocados
da sobrevivência" de beira de estrada, mediante a venda de todo tipo de
mercadorias, inclusive sexo. As obras são constituídas de fotos digitais (sem
qualquer edição ou manipulação) obtidas desde o carro em movimento. Por uma
lado, esses registros "indiretos" nos colocam num plano de observação
da estrada atípico e profundamente crítico da rotina laboral. Mas, por outro
lado, oferecem imagens de uma estética que remete a lógicas de sonho (quando
não de pesadelo) e, em conjunto, podem compor uma poética muito singular.
Essa possibilidade de ver o mundo
através de "intermediários" é uma das questões que as obras de Davi
abordam. Mediante fotos digitais das páginas de livros, propõe-se uma nova
leitura da imagem e da palavra associadas numa mesma realidade na qual não mais
se pode ler o texto completo nem a tela da qual se fala. Os fragmentos escolhidos
fazem um certo ready-made dos livros de arte, que, por sua vez, compõem um novo
olhar sobre obras de artistas bem conhecidos (Klimt, Hopper etc). Os múltiplos,
em termos gerais, partem de uma re-proposição quase iconoclasta das obras de
arte, que, ao mesmo tempo que nos aproximam de trabalhos geograficamente muito
distantes, avançam numa outra possibilidade perceptiva de obras célebres pelo
"desfocamento" da imagem. Nossas referências de arte ocidental estão
construídas por intermediários, seja pelos livros, seja pela internet. Nesse
sentido, a instalação discute a hiper-valorização da chamada inclusão digital,
a retórica dos discursos de acessibilidade à informação, o crivo midiático
permanente que estabelece um distanciamento dos objetos reais: você terá a
ilusão de folhear um livro (uma experiência quase lúdica), mas em definitiva
você não terá o livro em suas mãos e, muito menos, uma relação cognitiva
corpo-a-corpo com a obra.
Desse modo, a essência das obras aqui
apresentadas vai ao encontro de uma das grandes características da arte
contemporânea: oferecer uma plataforma de referência para compreender a
realidade, uma posição desde onde ver o mundo, uma possibilidade de leitura do
que nos rodeia.
Alejandra Hernández Muñoz
Arquiteta e Profª. Me. de História da Arte da
Escola de Belas Artes da UFBA